Nem sempre fugir de uma emoção significa sair correndo de uma situação difícil.
Na maioria das vezes, a fuga emocional aparece de maneira muito mais discreta.
Você continua trabalhando, conversando, resolvendo problemas e cumprindo suas responsabilidades. Ainda assim, pode estar criando distância de algo que sente.
Isso acontece porque algumas emoções provocam desconforto. Então, naturalmente, buscamos maneiras de não entrar em contato com elas.
O problema começa quando essas estratégias se tornam automáticas.
Por isso, observar alguns padrões cotidianos pode ajudar a perceber quando estamos nos afastando constantemente da nossa própria experiência.
1. Você precisa estar ocupado o tempo inteiro
Uma agenda cheia pode representar uma vida produtiva. Porém, também pode esconder uma dificuldade de parar.
Quando todas as pausas precisam ser preenchidas, vale observar o que acontece nos momentos de silêncio.
Talvez, assim que você diminui o ritmo, apareçam pensamentos, lembranças ou sensações desconfortáveis.
Então surge uma nova tarefa.
Você organiza alguma coisa, abre uma rede social ou começa outro trabalho.
Consequentemente, o movimento constante evita o encontro com aquilo que poderia aparecer se você simplesmente parasse alguns minutos.
A questão não é abandonar suas atividades. O ponto é perceber se existe espaço para estar consigo mesmo sem precisar imediatamente fazer alguma coisa.
2. Você tenta explicar tudo o que sente
Pensar pode ser uma ferramenta valiosa.
Entretanto, existe diferença entre compreender uma experiência e permanecer preso a uma análise interminável.
Você pode passar horas tentando descobrir por que alguém agiu daquela maneira. Pode reconstruir conversas, encontrar causas e imaginar cenários.
Ainda assim, talvez não tenha parado para perceber o que aquela situação provoca em seu corpo.
Esse excesso de racionalização pode criar distância da experiência emocional.
Por isso, além de perguntar “por que estou assim?”, experimente outra pergunta:
“Como isso está aparecendo em mim agora?”
Talvez exista aperto, tensão, calor, peso ou agitação.
Perceber essas sensações pode abrir uma via diferente de contato com a emoção.
3. Qualquer silêncio pede uma distração
Você termina uma tarefa e pega o celular.
Entra no carro e imediatamente coloca um podcast.
Chega em casa e liga a televisão.
Enquanto isso, cada pequeno espaço disponível recebe algum estímulo.
Naturalmente, entretenimento e distração fazem parte da vida. No entanto, vale observar se você consegue permanecer alguns minutos sem eles.
Às vezes, buscamos distração justamente porque o silêncio aproxima nossa atenção de algo que não queremos perceber.
Por isso, um pequeno exercício pode trazer informações interessantes.
Fique alguns minutos sem preencher o espaço.
Respire.
Perceba o corpo.
Então observe o que aparece.
4. Você quer resolver a emoção rapidamente
“Como faço para parar de sentir isso?”
Essa pergunta parece muito natural quando existe sofrimento.
Porém, ela pode revelar que estamos tratando a emoção como um problema que precisa ser eliminado.
Nem tudo precisa de uma solução imediata.
Às vezes, antes de mudar alguma coisa, precisamos reconhecer o que está presente.
Talvez exista frustração.
Talvez exista tristeza.
Talvez você ainda nem consiga definir claramente o que sente.
Mesmo assim, pode permitir que aquela experiência exista por alguns instantes.
Aceitar, nesse contexto, não significa gostar. Significa parar de lutar contra o fato de aquilo estar acontecendo agora.
5. Você evita situações que despertam certas emoções
Algumas formas de fuga começam a limitar a própria vida.
Você evita determinada conversa porque sabe que ela pode trazer desconforto.
Deixa de encontrar alguém para não sentir tristeza.
Não inicia um projeto porque teme a possibilidade de fracassar.
Aos poucos, nossas decisões podem começar a se organizar não pelo que queremos viver, mas pelo que queremos evitar sentir.
Claro que respeitar limites é importante. Nem toda situação precisa ser enfrentada.
Porém, existe uma diferença entre escolher conscientemente um limite e construir a vida inteira ao redor da fuga.
Perceber essa diferença já representa um passo importante.
O primeiro movimento não é mudar. É reconhecer.
Talvez você tenha identificado um ou vários desses sinais.
Isso não significa que precisa corrigir imediatamente seu comportamento.
Aliás, transformar a própria fuga em mais uma razão para se julgar apenas cria outra forma de resistência.
Primeiro, observe.
Quando surgir uma vontade automática de trabalhar mais, pensar mais, comer, assistir ou se distrair, experimente fazer uma pequena pausa.
Então pergunte:
“O que está acontecendo dentro de mim neste momento?”
Depois, direcione a atenção para o corpo.
Perceba a respiração, tensões, temperatura, peso e outras sensações.
Talvez você descubra uma emoção clara. Talvez não.
Ainda assim, você deixou de fugir por alguns instantes e começou a prestar atenção.
Esse movimento é simples, mas importante.
Porque aprender como lidar com as emoções não começa necessariamente pela tentativa de controlá-las.
Começa pela disposição de reconhecer o que já está acontecendo.