Por que tentamos fugir das emoções que mais precisamos compreender?

Sentir tristeza, medo, raiva, frustração ou vergonha nem sempre é confortável. Por isso, muitas vezes tentamos afastar essas emoções antes mesmo de compreendê-las.

Às vezes, fazemos isso conscientemente. Em outras situações, porém, criamos estratégias tão habituais que nem percebemos que estamos evitando sentir.

Podemos trabalhar demais, preencher todos os espaços da agenda ou passar horas diante de uma tela. Também podemos pensar excessivamente sobre o problema, buscando uma explicação para tudo.

Essas atitudes não são necessariamente ruins. No entanto, elas podem funcionar como fuga quando nos afastam continuamente daquilo que está acontecendo dentro de nós.

Por que evitamos emoções desconfortáveis?

Existe uma razão simples: algumas emoções doem.

Além disso, aprendemos desde cedo a dividir nossas experiências entre aquilo que queremos sentir e aquilo que preferimos evitar.

Queremos alegria, tranquilidade e segurança. Por outro lado, rejeitamos medo, tristeza, raiva, solidão e outras experiências desconfortáveis.

Então, quando uma emoção difícil aparece, buscamos uma saída.

O problema é que evitar uma emoção não significa necessariamente que deixamos de senti-la. Muitas vezes, apenas deixamos de prestar atenção nela.

Por isso, aprender como lidar com as emoções pode começar de outro lugar. Em vez de perguntar “como faço isso desaparecer?”, podemos perguntar: “o que está acontecendo em mim agora?”.

Essa mudança parece pequena. Entretanto, ela muda completamente nossa relação com a experiência.

Pensar sobre uma emoção não é o mesmo que senti-la

Uma das formas mais comuns de fuga acontece quando tentamos compreender tudo apenas pela mente.

Pensamos sobre o que aconteceu. Analisamos quem estava certo. Criamos explicações. Repassamos diálogos e imaginamos respostas diferentes.

Enquanto isso, o corpo continua vivendo a experiência.

Talvez exista um aperto no peito. Talvez a mandíbula esteja tensa. Pode haver peso no estômago, calor, frio, agitação ou uma respiração curta.

Essas sensações oferecem um caminho importante para perceber o que sentimos.

Portanto, lidar com uma emoção não significa apenas encontrar uma palavra para defini-la. Também significa criar espaço para perceber como aquela experiência aparece no corpo.

Reconhecer vem antes de transformar

Existe uma tendência natural de querer mudar rapidamente aquilo que incomoda.

Porém, antes de transformar alguma coisa, precisamos reconhecê-la.

Reconhecer significa prestar atenção ao que está acontecendo agora, sem exigir que a experiência seja diferente.

Talvez exista tristeza.

Talvez exista medo.

Talvez você nem saiba ainda qual emoção está presente. Ainda assim, pode perceber que existe tensão, peso, inquietação ou desconforto.

Esse primeiro contato já importa.

Afinal, quando percebemos algo que antes acontecia de maneira automática, ganhamos a possibilidade de responder de outra forma.

Aceitar não significa gostar

Outro ponto importante é diferenciar aceitação de conformismo.

Aceitar uma emoção não significa gostar dela. Também não significa concordar com tudo o que aconteceu.

Significa apenas reconhecer que, neste momento, aquela experiência existe.

A resistência costuma acrescentar uma segunda camada ao desconforto. Além de sentir algo difícil, começamos a lutar contra o fato de estarmos sentindo aquilo.

“Eu não deveria estar triste.”

“Já deveria ter superado isso.”

“Não posso sentir raiva.”

Consequentemente, a experiência pode ficar ainda mais pesada.

Em vez disso, podemos experimentar uma postura diferente: “isso está presente agora; posso observar o que acontece?”.

O corpo pode ajudar a encontrar o caminho

Quando fica difícil compreender uma emoção, voltar a atenção para o corpo pode ajudar.

Você pode começar com perguntas simples:

Onde percebo essa experiência?

Existe tensão ou relaxamento?

Calor ou frio?

Peso ou leveza?

Contração ou expansão?

Depois, observe sem pressa.

O objetivo não é produzir uma resposta correta. Também não é fazer a emoção desaparecer.

O convite é criar intimidade com aquilo que está acontecendo.

Com o tempo, essa prática pode tornar as emoções menos desconhecidas e, portanto, menos ameaçadoras.

Ir em direção, em vez de fugir

Talvez a questão não seja aprender a controlar todas as emoções.

Talvez seja aprender a se relacionar melhor com elas.

Isso inclui reconhecer, aceitar e sentir aquilo que aparece, respeitando também seus próprios limites.

Em alguns momentos, conseguimos fazer isso sozinhos. Em outros, precisamos de apoio, tempo, recursos ou acompanhamento profissional.

Ainda assim, existe uma mudança fundamental quando paramos de tratar toda emoção desconfortável como algo que precisa desaparecer.

Em vez de fugir automaticamente, podemos nos aproximar com curiosidade.

E, muitas vezes, aquilo que mais tentamos evitar pode revelar justamente algo importante sobre nossa história, nossas necessidades e a forma como estamos vivendo.

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